Mais da metade dos brasileiros têm dificuldades com tarefas digitais básicas, aponta pesquisa

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Relatório do INAF 2025 revela que a alfabetização digital no Brasil ainda é limitada, e maioria da população enfrenta desafios com ações simples no ambiente online

Apesar de avanços na conectividade, o Brasil ainda enfrenta sérios obstáculos quando o assunto é alfabetização digital. Uma pesquisa recente do INAF (Indicador de Alfabetismo Funcional), divulgada em maio de 2025, revelou que 56% dos brasileiros alfabetizados apresentam desempenho baixo ou intermediário em tarefas digitais cotidianas. Ou seja, a maioria da população encontra dificuldades para realizar ações simples como preencher um formulário online, verificar a autenticidade de um site ou concluir uma compra em ambiente virtual.

A pesquisa, conduzida em parceria com o Instituto Paulo Montenegro e a ONG Ação Educativa, foi a primeira do tipo no país a mensurar o letramento digital de forma estruturada. O levantamento avaliou não apenas o acesso à internet, mas a capacidade real dos brasileiros de navegar com segurança, interpretar informações digitais e resolver problemas práticos com o uso da tecnologia.

Os resultados revelam uma realidade preocupante: mesmo com o aumento no uso de celulares e redes sociais, grande parte da população não possui as competências mínimas para atuar de forma autônoma e segura na esfera digital. A exclusão digital, antes associada apenas à ausência de infraestrutura, agora se manifesta como uma lacuna de habilidades  e essa lacuna afeta o acesso ao conhecimento, à educação e ao mercado de trabalho.

Acesso não garante alfabetização digital

De acordo com o INAF, o simples acesso à internet não significa domínio das ferramentas digitais. Muitos usuários conseguem assistir vídeos ou enviar mensagens por aplicativos, mas não compreendem o funcionamento das plataformas que utilizam nem sabem avaliar a veracidade do conteúdo que consomem. Isso os torna vulneráveis a golpes, desinformação e uso inadequado de dados.

A pesquisa mostra que apenas 29% dos brasileiros foram classificados como plenamente proficientes em tarefas digitais, ou seja, conseguem resolver problemas mais complexos, como simular financiamentos, agendar serviços públicos online ou identificar riscos em termos de uso e privacidade. Outros 15% sequer conseguiram concluir tarefas básicas, sendo considerados excluídos do ponto de vista funcional.

Essa diferença entre estar conectado e ser alfabetizado digitalmente é o ponto central do alerta feito pelos pesquisadores. Em um país com mais de 150 milhões de usuários de internet, esse tipo de exclusão é sutil, mas profundo. Ela não aparece nos números de conectividade, mas compromete a efetiva participação social e econômica dos cidadãos.

Desigualdade digital e regional

A pesquisa também revelou fortes desigualdades regionais e socioeconômicas. As maiores dificuldades foram observadas entre pessoas com baixa escolaridade, moradores de áreas rurais e populações do Norte e Nordeste. O contraste com as regiões Sul e Sudeste, e com usuários com ensino superior, foi significativo.

A falta de acesso a dispositivos adequados, como computadores e tablets, também é apontada como fator limitante. Embora o celular seja o principal meio de conexão no Brasil, ele não oferece a mesma experiência de navegação, leitura e produção que um computador. Isso limita o aprendizado e reduz as possibilidades de desenvolvimento digital completo.

Outro fator crítico é a formação de professores. A maioria das escolas públicas ainda não oferece ensino consistente em tecnologia, e muitos docentes relatam dificuldades para integrar recursos digitais às suas práticas. Sem professores bem preparados, a alfabetização digital se torna superficial e descontínua.

Impacto na educação e no trabalho

O baixo nível de letramento digital tem consequências diretas na educação, no mercado de trabalho e na cidadania. Estudantes com baixa proficiência digital têm mais dificuldade para estudar de forma autônoma, fazer pesquisas e usar plataformas educacionais, o que prejudica seu desempenho e perpetua desigualdades.

No ambiente profissional, as habilidades digitais são cada vez mais exigidas , não só para áreas técnicas, mas para atividades administrativas, atendimento ao cliente, comércio, logística e outras funções. A ausência de domínio digital limita oportunidades de emprego, reduz a produtividade e afasta trabalhadores das vagas que exigem fluência tecnológica.

Além disso, há impactos na vida cotidiana: quem não sabe navegar bem na internet encontra barreiras para emitir documentos, acessar serviços públicos, consultar resultados de exames médicos, usar bancos digitais ou participar de processos eleitorais.

O que pode ser feito

Para enfrentar esse cenário, especialistas defendem políticas públicas estruturadas e de longo prazo, voltadas à promoção do letramento digital em diferentes frentes. Isso inclui:

  • Investimento em formação de professores e atualização dos currículos escolares, com a inserção de habilidades digitais desde o ensino fundamental;

  • Ampliação do acesso a equipamentos e conectividade de qualidade, especialmente nas periferias urbanas e zonas rurais;

  • Campanhas nacionais de inclusão digital voltadas à população adulta, com foco em habilidades práticas e segurança na internet;

  • Parcerias entre governos, empresas e sociedade civil para desenvolver programas gratuitos de capacitação digital.

A alfabetização digital deve ser entendida como uma política de base, transversal e urgente, tão importante quanto o ensino da leitura ou da matemática. Em um mundo onde tudo passa pelo digital, do emprego à saúde, da educação à cultura, não dominar essas ferramentas significa, na prática, estar excluído da sociedade contemporânea.

Conclusão

A pesquisa do INAF 2025 escancara uma realidade invisível para muitos: o Brasil está conectado, mas grande parte da população não sabe como viver plenamente nesse ambiente digital. Combater essa nova forma de exclusão exige mais do que distribuir computadores. É preciso garantir que todos, em todas as regiões e faixas sociais, tenham condições reais de compreender, usar e transformar o mundo digital em uma ferramenta de autonomia, participação e crescimento.

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