Ministra cubana renuncia após dizer que ‘não há mendigos’ no país

Imagem da Internet

A ministra do Trabalho e Previdência Social de Cuba, Marta Elena Feitó Cabrera, apresentou sua renúncia após declarações controversas sobre a população em situação de rua, feitas durante uma sessão da Assembleia Nacional em 15 de julho. Segundo publicação do gabinete da Presidência de Cuba na rede X (antigo Twitter), a ministra reconheceu seus erros e solicitou formalmente sua saída do cargo, em meio a uma onda de críticas nas redes sociais e pressão popular por sua demissão.

Feitó afirmou diante de parlamentares que “em Cuba não há mendigos”, e que pessoas vistas pedindo esmolas estariam, na verdade, “disfarçadas”. Segundo ela, muitos que limpam para-brisas nos semáforos usam o dinheiro obtido para “beber álcool”, enquanto outros, que vasculham lixo em busca de materiais, estariam apenas tentando revender produtos e evitar o pagamento de impostos.

A fala foi amplamente repercutida nas redes sociais, onde usuários compartilharam imagens e relatos de pessoas em situação de extrema pobreza, muitas delas revirando latas de lixo em busca de alimento. O economista cubano Pedro Monreal ironizou as declarações, afirmando que há “pessoas disfarçadas de ministros em Cuba”.

A crise de imagem foi agravada pela reação do próprio presidente cubano, Miguel Díaz-Canel, que, embora não tenha citado diretamente a ministra, criticou a falta de sensibilidade diante da vulnerabilidade social. “A revolução não pode deixar ninguém para trás; esse é o nosso lema, nossa responsabilidade militante”, escreveu ele em seu perfil no X. Em uma sessão parlamentar posterior, reiterou que os indigentes representam desigualdades sociais reais e que “nenhum de nós pode agir com arrogância ou desconectado das realidades”.

A controvérsia ocorre em um momento em que Cuba atravessa sua pior crise econômica das últimas três décadas. Com a queda de 1,1% no PIB em 2024 e uma retração acumulada de 11% nos últimos cinco anos, o país sofre com apagões diários, escassez crônica de alimentos, medicamentos e combustíveis, além de uma inflação elevada e salários que, na taxa de câmbio não oficial, giram abaixo dos 20 dólares mensais.

Especialistas atribuem a deterioração do quadro econômico a uma combinação de sanções internacionais, sobretudo dos Estados Unidos, e à má gestão interna do regime. A situação levou a um crescimento visível da pobreza e ao ressurgimento de práticas como a mendicância, antes raras na ilha, que contava com programas estatais de assistência mais robustos.

Em 2023, o governo reconheceu que 189 mil famílias, o equivalente a mais de 350 mil indivíduos, viviam em condições de vulnerabilidade. O enfraquecimento dessas políticas sociais tem contribuído para o aumento da desigualdade e para um êxodo migratório crescente, com muitos cubanos buscando melhores condições de vida fora do país.

A renúncia de Feitó é vista como uma tentativa de conter a insatisfação popular, mas também evidencia o descompasso entre a retórica oficial e a realidade vivida por grande parte da população cubana.

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