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Jonivaldo Castro

Mãe do Rio / PA

O papelão de Trump diante de Putin
Ao adular o russo e negar a verdade, Trump desencadeia uma reação política que poderá se revelar dramática para ele mesmo
O papelão de Trump diante de Putin
O presidente dos EUA, Donald Trump, recebe uma bola oficial da Copa de Vladimir Putin, durante encontro em Helsinque, na Filândia, nesta segunda-feira (16/7) (Foto: Kevin Lamarque/ Reuters)

Por Helio Gurovitz


 


 


Era esperado que o presidente da Rússia, Vladimir Putin, saísse vitorioso da cúpula com o americano Donald Trump em Helsinque. Supresa foi a natureza de sua vitória, cujas consequências serão dramáticas nem tanto para a Rússia, os Estados Unidos ou o mundo, mas sobretudo para o próprio Trump.


Por ora, podemos ficar relativamente tranquilos de que tudo ficará mais ou menos como está no plano internacional. Depois que Trump se estranhou com os aliados da Otan, generais e diplomatas se apressaram em aplacar o mal-estar. Não se sabe ao certo como tratou de temas geopolíticos no encontro a sós com Putin.


Na entrevista coletiva de ontem, Trump não reconheceu a soberania russa sobre a Crimeia, não isentou a Rússia de responsabilidade sobre os envenenamentos no Reino Unido, nem apoiou o regime de Bashar Assad, sob os auspícios russos, como única forma de pacificar a Síria.


O centro da entrevista não foi a política externa, mas a interna. Especificamente, a intervenção russa na campanha eleitoral americana de 2016. Nesse item, Putin obteve de Trump mais do que era esperado, mais do que era razoável e muito, muito mais do que era legítimo.


Trump desmentiu as conclusões de todos os serviços de inteligência americanos (e ocidentais) sobre a tentativa do governo russo de manipular as eleições de 2016. Foi não apenas uma mentira deslavada. Foi uma afronta às instituições de seu próprio país.


Entre a negativa de Putin e as investigações de CIA, FBI, NSA; entre a negativa de Putin e as conclusões da Câmara e do Senado; entre a negativa de Putin e a própria confissão de hackers ligados às operações de dois serviços secretos russos (FSB e GRU) – entre a negativa de Putin e a verdade, bem, Trump escolheu Putin:


– Eles dizem que pensam que foi a Rússia. Aqui está o presidente Putin. Ele diz que não foi a Rússia. Vou dizer o seguinte: não vejo nenhum motivo por que seria. O presidente Putin foi extremamente firme e poderoso em sua negativa hoje.


Foram essas as suas palavras, ditas pouco depois que o próprio Putin reconhecera que preferia a vitória de Trump nas eleição. E não ficou por aí. “Considero ambos os países responsáveis”, respondeu ao ser questionado sobre a responsabilidade russa, numa repetição da falácia da equivalência moral que já usara para evitar condenar a violência neonazista em Charlottesville no ano passado.


Depois de desafiar a unidade da aliança ocidental e de submeter-se aos desígnios de Putin, o próprio Partido Republicano começa a desconfiar da capacidade de Trump para conduzir a política externa do país.


Em Washington, a reação negativa na comunidade de inteligência foi unânime. “Fomos claros na avaliação da interferência russa na eleição de 2016 e de seus esforços contínuos, disseminados para abalar nossa democracia”, disse o diretor de inteligência nacional do próprio governo Trump, Dan Coats. “Não só Trump fez comentários imbecis, ele está totalmente no bolso de Putin”, afirmou o ex-diretor da CIA no governo Obama John Brennan.


Para Trump, a principal consequência da cúpula de Helsinque se dará, portanto, não no plano internacional, mas em casa. Impossível prever a extensão do abalo na confiança em seu governo. Mas a reação de vários conservadores e republicanos demonstra que, doravante, Trump não contará com o apoio incondicional que, desafiando as probabilidades, vinha mantendo.


“Não há questão de que a Rússia interveio na nossa eleição e continua a tentar minar a democracia”, disse o líder do governo Trump na Câmara, Paul Ryan. “Foi o erro mais sério de sua presidência e precisa ser corrigido – imediatamente”, escreveu numa rede social o republicano Newt Gingrich, partidário entusiasmado de Trump. “Nenhum presidente anterior se rebaixou de modo tão abjeto perante um tirano”, afirmou o senador John McCain.


O coro foi engrossado por dezenas de senadores e deputados. O republicano Lindsey Graham chegou a fazer piada com a bola da Copa do Mundo, entregue por Putin de presente a Trump diante de todos: “Se fosse eu, faria uma varredura na bola atrás de dispositivos de escuta e nunca a deixaria entrar na Casa Branca”.


Há um limite óbvio entre o que Trump diz e o que sua administração faz. Todos – menos ele, aparentemente – sabem que, na hora de implementar as políticas para valer, entram em cena os profissionais. Mas também há um limite para o que é aceitável que ele diga. Depois de ontem, palavras como “alta traição” ou “impeachment” voltaram a circular com força por Washington, pela imprensa e pelas redes sociais.


Trump tem razão em afirmar que, até o momento, não há nenhuma prova concreta de “conluio” entre sua campanha e os russos, muito menos das alegações estapafúrdias de que Putin tenha material comprometedor (em russo, kompromat) para chantageá-lo (com provas de negócios suspeitos e inclinações sexuais esdrúxulas, de acordo com o dossiê elaborado pelo ex-espião Christopher Steele).


Mas seu comportamento diante de Putin parece corroborar as teorias conspiratórias mais absurdas. Trump ainda tem muito a explicar. Seus elos com a Rússia são antigos. Desde os anos 1980, chefões da máfia russa lavavam dinheiro em propriedades e cassinos da marca Trump. Diversas vezes, ele tentou sem sucesso operar no mercado imobiliário russo, em associações com oligarcas.


O filho de Trump, Don Jr., aceitou receber na Trump Tower, em plena campanha, uma advogada que dizia ter material comprometedor (kompromat...) contra Hillary Clinton. O mesmo Don Jr. esteve envolvido na tentativa de armar um encontro entre Trump e Putin, protagonizada pela agente Maria Butina, primeira russa a ser presa como resultado das investigações sobre a intervenção na campanha.


Até agora, nenhum dos fatos comprovados sobre a intervenção russa implica Trump diretamente. Mas a política – e ele próprio, mais que ninguém, deveria saber disso – costuma ter uma relação apenas tênue com os fatos. Para mover as engrenagens do poder, basta que versões ganhem força irresistível. Com seu papelão diante de Putin, Trump encheu de combustível o tanque daqueles que desejam derrubá-lo.


 

FONTE: g1.globo.com

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