Operação policial no Rio deixa pelo menos 132 mortos, corpos se amontoam nas ruas.

IO DE JANEIRO, 29 de outubro (Reuters) – A operação policial mais letal da história do Brasil deixou pelo menos 132 mortos, disseram defensores públicos nesta quarta-feira, enquanto moradores do Rio de Janeiro se alinhavam em uma rua com dezenas de cadáveres encontrados durante a noite, uma semana antes dos eventos climáticos globais na cidade.
A polícia estadual afirmou que as operações contra uma importante quadrilha de narcotráfico, realizadas no dia anterior, foram planejadas exaustivamente por mais de dois meses, com o objetivo de atrair os suspeitos para uma encosta arborizada onde uma unidade de operações especiais os aguardava em emboscada.
“A alta letalidade da operação era esperada, mas não desejada”, disse Victor Santos, chefe de segurança do estado do Rio, em entrevista coletiva. Autoridades da polícia do Rio confirmaram 119 mortes até o momento, incluindo quatro policiais.
Santos afirmou que não há nenhuma ligação com os eventos globais que o Rio sediará na próxima semana relacionados à cúpula climática COP30 das Nações Unidas, incluindo a cúpula global C40 de prefeitos que abordam as mudanças climáticas e o Prêmio Earthshot do Príncipe William da Grã-Bretanha.
O Rio de Janeiro sediou diversos eventos globais na última década, incluindo as Olimpíadas de 2016, a cúpula do G20 de 2024 e a cúpula do BRICS em julho, sem que houvesse violência na escala vista na terça-feira.
A operação policial mais letal da cidade antes de terça-feira havia sido uma em 2021, que deixou 28 mortos no bairro do Jacarezinho. Em 1992, 111 pessoas morreram quando a polícia paulista invadiu o Presídio do Carandiru para conter uma rebelião.
Moradores do bairro da Penha, no Rio, recolheram dezenas de cadáveres da mata próxima durante a noite e enfileiraram mais de 70 corpos no meio de uma rua principal.
“Só quero tirar meu filho daqui e enterrá-lo”, disse Taua Brito, mãe de uma das vítimas, cercada por pessoas em prantos e curiosos de ambos os lados da longa fileira de corpos, alguns dos quais cobertos com lençóis ou sacos.

ONU EXIGE INVESTIGAÇÃO IMEDIATA

Diversos grupos da sociedade civil e especialistas em segurança pública criticaram o elevado número de vítimas da operação de estilo militar. O Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos afirmou que o ocorrido reforça uma tendência de operações policiais extremamente letais em comunidades marginalizadas do Brasil.
“Relembramos às autoridades suas obrigações perante o direito internacional dos direitos humanos e instamos a investigações rápidas e eficazes”, afirmou a agência em comunicado.
O governador do Rio, Cláudio Castro, afirmou ter certeza de que os mortos na operação eram criminosos que disparavam armas de fogo da mata.
“Não creio que alguém estaria andando na floresta no dia do conflito”, disse ele aos repórteres, classificando as operações como um esforço para combater o “narcoterrorismo”.
“As únicas vítimas reais foram os policiais”, disse ele.
O governo do estado do Rio de Janeiro afirmou que a operação foi a maior já realizada contra a facção Comando Vermelho, que controla o tráfico de drogas em diversas favelas – assentamentos pobres e densamente povoados que se estendem pelo terreno montanhoso à beira-mar da cidade.
A polícia informou ter prendido 113 suspeitos na operação e apreendido 118 armas de fogo.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva ficou surpreso ao saber que a polícia do Rio havia lançado uma operação “extremamente sangrenta e violenta” sem notificar ou envolver o governo federal, disse o ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, a jornalistas.
O ministro afirmou que planeja se reunir com o governador do Rio e que poderá aumentar o número de agentes de segurança federais na cidade.
Lula, que retornou a Brasília na noite de terça-feira após uma viagem à Malásia, reuniu-se com o vice-presidente Geraldo Alckmin e membros do gabinete na quarta-feira para discutir o assunto, informou seu gabinete.

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